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ABD - Aprendizagem Baseada em Dilemas

Dilema Resumido:

#020 - O Confronto no Farol

Nestor, parado no trânsito de São Paulo em seu SUV, é surpreendido por um motoboy armado exigindo seus pertences. Percebendo que a arma é falsa, mas movido pelo instinto de autopreservação, Nestor, que legalmente porta uma arma, reage e atira no motoboy. A ação, tomada em segundos, leva a uma fatalidade e coloca Nestor em uma situação complexa perante a lei e sua própria consciência. Ele alega à polícia não ter reconhecido o perigo como não letal, destacando o dilema entre a percepção de ameaça e a reação instintiva. Este incidente no farol desencadeia uma reflexão profunda sobre a violência, o medo e as decisões tomadas sob pressão, que definem não apenas o destino de um indivíduo, mas também questionam os limites da autodefesa e as repercussões de nossas ações.

Dilema Completo:

#020 - O Confronto no Farol

Em uma tarde comum na agitada São Paulo, Nestor, um executivo de sucesso, encontra-se imerso em seus pensamentos enquanto aguarda o sinal verde em seu SUV zero quilômetro. O trânsito, sempre um caos, parece ser o menor de seus problemas até que um evento inesperado o arranca de sua bolha de conforto. Um motoboy, com a urgência que a vida nas ruas impõe, aproxima-se de sua janela, arma em punho, exigindo seus pertences - celular e relógio. A tensão do momento é palpável, e Nestor, cuja vida até então transcorria entre decisões corporativas, vê-se diante de uma escolha crítica.

Nestor, que não é estranho à responsabilidade que carregar uma arma consigo implica, percebe algo crucial: a arma do assaltante não passa de um simulacro. No entanto, o medo e a adrenalina obscurecem a linha entre percepção e realidade. Com a rapidez de quem está acostumado a tomar decisões sob pressão, ele faz uso de sua própria arma, a qual carrega legalmente, e dispara contra o motoboy, encerrando a ameaça com uma finalidade trágica.

Quando as autoridades chegam, Nestor se vê enredado em uma teia de justificativas. Alega não ter tido conhecimento de que enfrentava uma ameaça não letal, uma defesa que lança luz sobre as sombras da dúvida, medo e instinto de sobrevivência. Este momento de confronto no farol abre um abismo de questionamentos sobre a violência, a autopreservação e as escolhas feitas em frações de segundo que reverberam por toda uma vida.

Comentários:

O dilema enfrentado por Nestor no farol é um exemplo vívido das complexidades envolvidas na tomada de decisões sob pressão, especialmente quando essas decisões têm consequências fatais. Para explorar este dilema, recorremos à ética da responsabilidade, conforme articulada por Hans Jonas. A ética da responsabilidade enfatiza a previsão e precaução nas ações humanas, considerando as consequências a longo prazo de nossas escolhas. Jonas argumenta que, diante da capacidade humana de afetar o futuro de maneira significativa, temos uma obrigação ética de agir de maneira que preserve a integridade e o futuro da vida humana.

 

Ética da Responsabilidade de Hans Jonas

 

1. Previsão e Precaução: Nestor, ao se deparar com uma ameaça, mesmo sob pressão, tinha a responsabilidade de avaliar a situação com a maior precisão possível. A ética da responsabilidade sugere que, mesmo em circunstâncias de risco, as ações devem ser guiadas por uma avaliação cuidadosa das possíveis consequências.

2. Princípio da Responsabilidade: A decisão de Nestor de usar força letal, baseada em sua percepção de ameaça, coloca em questão o princípio da responsabilidade. Jonas argumentaria que a responsabilidade de Nestor se estende além de sua autopreservação imediata, alcançando as repercussões de suas ações sobre a vida de outro ser humano.

3. Ética e Autodefesa: O dilema também levanta questões sobre os limites éticos da autodefesa. A ética da responsabilidade requer que a autodefesa não exceda o necessário para neutralizar a ameaça percebida, mantendo um equilíbrio entre a autopreservação e a preservação da vida alheia.

 

Respondendo às Questões:

1.Nestor agiu dentro dos limites éticos da autodefesa, segundo a ética da responsabilidade?

Segundo a ética da responsabilidade, a ação de Nestor pode ser vista como excessiva, dado que a ameaça não era letal. A responsabilidade ética exigiria de Nestor uma avaliação mais cuidadosa da ameaça e uma resposta proporcional, visando minimizar o dano.

2. Como a ética da responsabilidade orienta a tomada de decisão em situações de alto risco?

A ética da responsabilidade orienta que, mesmo em situações de alto risco, as decisões devem ser tomadas com consideração pelas consequências a longo prazo e pelo princípio de precaução. Isso implica uma avaliação cuidadosa da situação, buscando ações que preservem a vida e minimizem o dano.

3. Qual o papel da percepção e do medo na avaliação ética das ações de Nestor?

Na ética da responsabilidade, a percepção e o medo são fatores relevantes, mas não eximem o indivíduo da responsabilidade de agir de maneira ética. Embora reconheça a influência desses fatores na tomada de decisão, a ética da responsabilidade enfatiza a necessidade de esforços para superar o medo e a percepção equivocada, visando ações que se alinhem com a preservação da vida e a responsabilidade para com o outro.

 

Referências Bibliográficas:

  • Jonas, Hans. "O Princípio Responsabilidade: Ensaio de uma Ética para a Civilização Tecnológica". Tradução de Marijane Lisboa e Luiz Barros Montez. Editora PUC-Rio, 2006.

  • Jonas, Hans. "Ética, Medicina e Técnica". Tradução de Fernanda Bernardo. Vega, 1994.

 

A análise deste dilema sob a perspectiva da ética da responsabilidade de Hans Jonas destaca a importância de considerar as consequências de nossas ações, especialmente quando estas têm o potencial de causar dano irreversível. Ela nos lembra da necessidade de agir com precaução e responsabilidade, mesmo sob pressão, para preservar a dignidade e a vida humana.

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