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ABD - Aprendizagem Baseada em Dilemas

Dilema Resumido:

#005 - Confiança Quebrada

Paulo e Paula, apaixonados desde a faculdade, planejam seu casamento e lua de mel na Europa. No entanto, após saírem da recepção de comemoração, são abordados por um bandido armado, que os leva para um lugar isolado e rouba seus pertences. Em um momento de extrema tensão, o bandido falou: Eu vou matar um de vocês. Falem quem eu devo matar. Houve um silêncio momentâneo e quando o bandido gritou novamente: Quem? Simultaneamente Paula e Paulo responderam. Naquele momento, olhando um para o outro, houve uma sensação de indignação de ambos. Algumas horas atrás eles estavam fazendo juras de amor eterno, de que um protegeria o outro na saúde e na tristeza. Tudo acabou. E agora?

Dilema Completo:

#005 - Confiança Quebrada

Paulo e Paula se conheceram logo após a formação universitária quando estagiavam em uma empresa. Eram do mesmo nível social e frequentavam os mesmos lugares. Paulo começou a gostar de Paula e vice-versa. Paula foi efetivada na empresa que estagiava e Paulo foi convidado e ser gerente em outra empresa. Trabalhavam perto e, entre um almoço e outro, começaram a ficar juntos. Para valer!

Namoraram três anos e resolveram casar. Compraram apartamento. Mobiliaram. Combinaram de passar a lua de mel na Europa.  Como o sonho de Paula era casar em uma igreja de véu e grinalda, assim o fizeram. Resolveram casar e fazer a recepção no próprio salão da igreja. Uma coisa simples, apenas para agradecer aos parentes e amigos, já que no dia seguinte logo cedo embarcariam para Paris.

Logo após a recepção, Paulo e Paula se despediriam do pessoal e pegaram o carro em direção a sua casa. Era tarde da noite. Em um semáforo, eles foram abordados por um bandido à mão armada que, entrando no carro no banco de trás, mandou que eles fossem para um lugar bem longe.  Era um barraco afastado da cidade. O bandido pegou todo o dinheiro que eles ganharam na festa, mais algumas joias e amarrou os dois, um de frente para o outro.

Em determinado momento o bandido falou: “Eu vou matar um de vocês. Falem quem eu devo matar”. Houve um silêncio momentâneo e quando o bandido gritou novamente: “Quem? ”.

Simultaneamente Paula e Paulo responderam: ”Ele.... Ela...”

Naquele momento, olhando um para o outro, houve uma sensação de indignação de ambas as partes. Algumas horas atrás eles estavam fazendo juras de amor eterno...de que um protegeria o outro... na saúde e na tristeza... etc.

 

O bandido amordaçou os dois e os deixou um de frente para o outro e disse: “é brincadeira! Não vou matar nenhum dos dois. Convivam com isso agora”. Ao sair pela porta do barraco, disse que chamaria a polícia e que, no prazo de duas horas, eles estariam libertos.

Paulo e Paula, sem poder falar, ficaram ali, frente a frente, olhando um para o outro e expressando emoções inexplicáveis e inimagináveis.

Comentários:

O dilema enfrentado por Paulo e Paula, recém-casados e subitamente colocados em uma situação de vida ou morte, oferece um terreno fértil para a aplicação dos conceitos de aética e amoral. Esses conceitos nos permitem explorar as dimensões mais profundas e instintivas das decisões humanas quando confrontadas com ameaças extremas à própria existência.

Após uma celebração de casamento, Paulo e Paula são sequestrados por um criminoso que, após roubar seus pertences, coloca-os em uma situação onde um deve escolher quem será morto. Sob essa pressão extrema, ambos indicam um ao outro para ser o sacrificado. Esse momento de escolha revela uma complexidade emocional e psicológica profunda, desafiando as promessas de amor e proteção mútua feitas anteriormente.

 A reação de Paulo e Paula pode ser entendida através do prisma da aética, que sugere uma ausência de ética referencial capaz de guiar suas ações em substituição aos instintos. Nesse momento crítico, as normas éticas convencionais, que orientariam comportamentos em circunstâncias normais, são suplantadas por um impulso primal de sobrevivência. Essa resposta instintiva não é mediada por uma deliberação ética, mas emerge diretamente da necessidade imediata de autopreservação.

Similarmente, o conceito de amoralidade é aplicável à situação, destacando a ausência de uma referência moral que possa substituir o medo. Sob a ameaça iminente de morte, as considerações morais que normalmente guiariam a escolha de proteger o ente amado são eclipsadas pelo medo avassalador. Neste contexto, a decisão de cada um de indicar o outro reflete uma condição amoral, onde o medo oblitera a capacidade de julgamento moral.

A reconstrução da confiança entre Paulo e Paula após essa decisão extrema requer uma compreensão mútua das condições aética e amoral sob as quais suas decisões foram tomadas. Reconhecer que suas ações foram o resultado de respostas instintivas e imediatas à ameaça, e não de uma falha intrínseca em seu caráter ou amor, é fundamental para o processo de reconciliação.

Respondendo as questões:

1. A ação de Paulo e Paula em uma situação de vida ou morte é um dilema ético ou uma quebra da moral de confiança? 

A ação de Paulo e Paula representa uma manifestação de aética e amoralidade, mais do que um dilema ético convencional ou uma quebra da moral de confiança. Suas respostas foram dominadas por instintos de sobrevivência e pelo medo, transcendendo as noções habituais de ética e moralidade.

2. A quebra de promessas sob pressão extrema pode ser entendida como uma falha na ética ou uma adaptação da moral à situação? 

Sob as condições de aética e amoralidade, a quebra de promessas pode ser vista como uma adaptação instintiva à situação, em vez de uma falha na ética ou moral. As circunstâncias extremas exigiram uma resposta que está além das avaliações éticas ou morais tradicionais.

3. A possibilidade de reconstruir a confiança após uma decisão extrema é uma questão de ética permanente ou de moral flexível? 

A reconstrução da confiança é uma questão que transcende a dicotomia entre ética permanente e moral flexível, entrando no domínio da compreensão humana e do perdão. Reconhecer a natureza aética e amoral das decisões tomadas pode facilitar um caminho para a reconciliação, baseado na compreensão das limitações humanas sob pressão extrema.

Referências Bibliográficas:
  • Kierkegaard, Søren. O Conceito de Angústia. Várias edições disponíveis. Kierkegaard explora a condição humana, a angústia e as escolhas éticas, oferecendo uma base para entender a complexidade das decisões humanas

  • Nietzsche, Friedrich. Além do Bem e do Mal. Várias edições disponíveis. Nietzsche discute a moralidade para além das dicotomias tradicionais de bem e mal, o que pode ser relevante para a discussão sobre amoralidade.

  • Lifton, Robert Jay. The Nazi Doctors: Medical Killing and the Psychology of Genocide. Basic Books, 1986. Embora focado em um contexto histórico específico, este trabalho explora como indivíduos podem agir de maneiras extremas sob certas pressões, relevante para a discussão sobre aética.

  • Milgram, Stanley. Obedience to Authority: An Experimental View. Harper & Row, 1974. Este estudo clássico sobre a obediência à autoridade pode oferecer insights sobre como as pessoas podem agir de maneiras inesperadas quando sob pressão.

  • Baier, Annette. Moral Prejudices: Essays on Ethics. Harvard University Press, 1994. Baier discute a importância da confiança nas relações éticas, o que pode ser útil para entender a reconstrução da confiança.

  • Goleman, Daniel. Inteligência Emocional. Várias edições disponíveis. Goleman aborda a importância da empatia, do autoconhecimento e da regulação emocional, elementos chave para a reconstrução da confiança após uma crise.

  • Acis, Xiko. Código de Conduta e Princípios Ética, Autografia, 2017 - Rio de Janeiro - RJ

Essas referências não tratam diretamente dos conceitos de aética e amoral como foram especificamente aplicados ao dilema apresentado, mas oferecem um pano de fundo teórico e filosófico que pode enriquecer a compreensão das dinâmicas em jogo. A análise proposta busca explorar as reações humanas sob condições extremas, utilizando uma abordagem que, embora não diretamente ancorada em fontes específicas, dialoga com questões centrais da ética, da moralidade e da psicologia humana.

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