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Dedurar: é moral e ético?


Dedurar, literalmente: delatar, denunciar e/ou entregar uma ou mais pessoas que, quando perguntado: “Quem fez isso?”, do ponto de vista de ter causado um mal qualquer, a pessoa aponta o dedo para a outra pessoa ou pessoas que fizeram tal mazela. Outros nomes utilizados: dedo-dura, caguete, x9 etc.


No Brasil, existe um estigma que: dedurar alguém é uma ação covarde e de quem não tem caráter. Nunca devemos dedurar ninguém. Trata-se de um acordo tácito que veio sei lá de onde e se mantém, infelizmente, até hoje em vários círculos sociais e comunidades.


Lembre que, no auge da lava-jato o Marcelo Odebrecht quando interrogado sobre se ele faria ou não a delação, ele disse: “se suas filhas tivessem feito alguma coisa errada, ele criticaria mais quem dedurou do que quem cometeu o fato”.


Lembro uma vez quando era pequeno, uns 10 anos, estávamos todos (6 crianças) na rua brincando e um colega, usando um estilingue, atirou uma mamona no cachorro de uma vizinha que estava passeando com ele. Como estávamos todos sentados juntos, ela não viu quem atirou. No mesmo momento, ela perguntou quem foi e todas as crianças ficaram quietas. Ela disse que ia falar com os pais das crianças e o fez.


Meu pai veio perguntar para mim o que aconteceu. Eu expliquei e ele falou: “fez bem em não dedurar. Ser dedo-duro é muito feio”.


E assim, minha geração cresceu trazendo isso como “valores” da geração passada e tentando passar isso para meus filhos. (só que não). Infelizmente para meu pai e felizmente para meus filhos, eu estudei filosofia e me especializei em ética e moral e tenho, absoluta certeza de que essa atitude é imoral e antiética.


Vamos falar do mundo organizacional, mas os argumentos servem para qualquer contexto.

Quando em uma organização, seu colega de trabalho faz algo errado, por exemplo: mentir nas despesas de viagens, e você o vê fazer, o que você faz?


  • Se você seguir o estigma de que delatar é feio, você ficará quieto pois não é problema seu. Desta maneira você será imoral e antiético convicto junto com o colega.

  • Se você não concordar com que seu colega fez e alertá-lo que não deveria fazer isso, pois caso contrário você denunciaria, você agirá de forma moral e com princípios éticos. Poderá perder o amigo e ainda ficar com o estigma de dedo-duro.

  • Se seu amigo não mudar e você denunciar, aí a casa vai cair na sua cabeça (dependendo da empresa que você trabalha, é claro). Todos o chamarão de dedo-duro. Se o manda chuva for igual o Marcelo Odebrecht, com certeza você será demitido.

Parece que todos preferem essa postura de não dedurar, independentemente de que isso afeta radicalmente o coletivo.

Quando, em uma organização, há mais coniventes com as mazelas dos seus agentes do que com as virtudes, a organização perece. Não existe nenhuma organização, a não ser as verdadeiramente criminosas, que se mantém em pé por muito tempo valorizando a má fé. Nesse tipo de organização, os talentos somem. Vão procurar algo mais decente para entregar resultados.


Os que ficam, são a continuidade de que, dedurar é feio. São pessoas imorais e antiéticas.


As organizações estão mudando aos poucos. Hoje vemos canais de denúncias, ouvidoria, portais para reclamação e assim por diante. Mesmo internamente as áreas de compliance, governança vem atuando de forma mais intensa nesses últimos dez anos.


Porém vejo poucas organizações trabalharem com o desenvolvimento da cultura ética e moral, como base para as outras culturas organizacionais. Essas organizações se esquecem que, em casa, o colaborador pode ter sido criado ou ainda é, nos moldes de que dedurar é feio. Como esse colaborador não tem repertório ético e moral suficiente, ele não conseguirá mostrar aos familiares que dedurar é definitivamente moral e ético. Se isso acontecer, esse colaborador vai sofrer por não conseguir ser integro na organização e em casa.


É claro que, até para dedurar temos regras:

1º investigar a intencionalidade do fato, ou seja, o observador deve procurar entender o que está levando aquele agente a fazer aquilo que a organização não quer que seja feito;

2º de acordo com a intencionalidade, ou seja, se foi descuido, se foi inobservância e/ou desconhecimento de regras, o observador deve falar primeiro com o agente antes de delatar para demovê-lo a não agir contra as regras existentes, demostrando que essa ação tem consequências para ele e para a organização;

3º se a intencionalidade é um desvio de caráter, o observador deve relatar ao seu superior imediatamente, denunciando o agente nos canais próprios para essa ação.


Vejam que todos esses passos preservam pessoas e focam no coletivo. É isso que importa e é isso que demos estimular nas organizações e não o contrário.

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