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(Des)propósito


Na busca incessante por um modelo ideal de orientação empresarial, a definição de missão, visão e valores propunha estabelecer raízes sólidas na cultura corporativa, oferecendo um norte para as ações e objetivos de longo prazo das organizações. Embora a teoria tenha sido popularizada por Peter Drucker na década de 1960, ainda ecoa nas estruturas empresariais atuais. Entretanto, uma onda subsequente, aquela do "propósito nos negócios", emergiu com o intuito de infundir um significado mais profundo e uma responsabilidade social nas empresas.


Autores influentes como John Mackey e Howard Schultz advogaram que as empresas, para transcender a busca de lucro e crescimento financeiro, precisam abraçar um propósito maior, tornando-se agentes de mudança em prol do bem-estar coletivo. No entanto, a discrepância entre a teoria e a prática tem suscitado inquietantes interrogações.


O que poderia explicar a realidade de muitas empresas que abraçaram essa tendência e ainda estejam imersas em controvérsias e escândalos?

Explorando o panorama das principais empresas brasileiras que adotaram a fachada do "propósito e/ou significado", revela-se uma sombria realidade. Problemas trabalhistas, tributários, ambientais e criminais emergem em suas histórias, questionando a integridade e a validade de tais declarações. Isso desencadeia uma reflexão mais profunda sobre o papel da ética e moral nesse contexto.


A missão, visão, valores e propósito/significado, embora pareçam importantes diretrizes, não podem, por si sós, garantir a virtuosidade organizacional. E aqui reside a essência do dilema: são ferramentas que podem tanto refletir a genuína intenção de uma organização quanto encobrir suas mazelas. O cerne da questão reside na natureza das pessoas que dirigem e constituem essas empresas.


As entidades empresariais, apesar de sua complexa estrutura legal, são, em última instância, forjadas e moldadas pelas mãos humanas. Os CEO's e donos podem optar por adotar uma máscara de virtude, mas, em algum momento, serão descobertos e execrados. Com eles, todos que foram coniventes e omissos em nome de assegurar o seu emprego.


A inegável realidade é que a verdadeira virtuosidade não reside nas entidades abstratas como as empresas, mas nas almas das pessoas que as conduzem. Enquanto os valores organizacionais podem moldar a cultura de uma empresa, é a reflexão ética e a ação moral que determinam o comportamento humano. O CNPJ não possui consciência nem caráter, é uma entidade desprovida de intenções e convicções. Assim, os ideais proclamados podem ser vazios sem a aplicação sincera das virtudes humanas fundamentais.


Nesse contexto, é imperativo despir as organizações da roupagem teatral do estabelecimento de virtudes superficiais e reexaminar o âmago da questão. A transformação genuína advém da conscientização individual, da forja de um senso ético sólido e da reflexão profunda sobre a eticidade de nossas ações. Somente então poderemos almejar que empresas, em momentos específicos e contextos particulares, possam demonstrar uma Postura Ética e uma Ação Moral verdadeiramente exemplares.


Em última análise, a busca por um mundo empresarial melhor e mais ético transcende a mera adesão a jargões ou modas corporativas. Requer uma revolução interna, uma transformação do âmago das nossas intenções e ações. Ter uma postura ética e moral genuína, requer um esforço imensurável todos os dias. Ter uma postura ética e moral, definitivamente, não é para os fracos. Os fracos apenas optam pelo propósito/significado.


Te convido a uma reflexão profunda e uma jornada interior em direção à verdadeira ética e moral, que, quando internalizadas, podem florescer em ações impactantes e empresas verdadeiramente responsáveis, servindo ao bem comum e transcendendo as máscaras passageiras das tendências de gestão.


Por fim, sua organização não precisa ser conhecida e/ou reconhecida pelo seu propósito. Ela precisa, apenas, ser ética. O resto, definitivamente, é resto!
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