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Evolução Ética


A única evolução possível para o ser humano é a evolução ética. O resto é acumular bens.

Quem disse isso foi José Saramago (1922-2010). Nunca uma frase fez tanto sentido para mim como essa. A profundidade dela é imensa e sua atualidade também. Merece uma reflexão profunda do que apenas o passar d’olhos.

Mas como se aplica esse pensamento nos negócios empresariais?

Por não compreender a profundeza da frase, cometemos erros grotescos que nos levam para uma involução ética. Imagine por exemplo que você trabalha em uma empresa que comete deslizes éticos e morais. Como nada é escondido em uma empresa, você tomará conhecimento desses deslizes mais cedo ou mais tarde. O que você faz?

Atitudes corriqueiras que mostram a involução ética
  • Provavelmente você vai se omitir em denunciar, quer para organismos internos quer para organismos externos, os tais deslizes;

  • Em nome da manutenção do emprego, que não está fácil, você vai “fingir” que não tem nada a ver com isso. Que é briga de “gente grande”;

  • Se for um amigo/amiga seu/sua aí que você não denuncia mesmo. Você pode até ter uma conversa com a pessoa que vai acabar com: “olha lá hein?”

  • Talvez você assuma a “ignorância ética e moral” e justifique que não sabia de nada;

  • Se a empresa tem uma área de denúncias anônimas, num rampante de coragem, você faz ou pede para alguém fazer a denúncia;

  • Se a empresa tem código de conduta que diz que você deve denunciar irregularidades, talvez você fará desde que, quem está cometendo as irregularidades não faça parte do comitê de ética ou da alta gestão e afins;

  • Se a empresa tem área de compliance e governança, você provavelmente não vai denunciar pois é papel deles ficarem atentos com as normas e políticas da empresa. Você é apenas mais um;

  • Outras justificativas criativas e mirabolantes de pessoas que não têm repertório, não têm conhecimento ético e moral e/ou são apenas egoístas contumazes.

As justificativas são imensas, Há mais medo na cabeça do observador do que do observado e, em geral, ambos são perniciosos ao mundo. Se você tem uma mesma religião, um mesmo time, gosta das mesmas pessoas que o seu amigo, vocês comungam de uma experiência de afinidades. Da mesma forma que, se seu amigo é antiético e imoral, ao conviver com ele, você comunga desses vícios. Afinal: me digas com quem anda que eu te direi que és.

Juízo e Valor

Há uma minoria, bem pequena mesmo, que pensa diferente e quer evoluir eticamente. São pessoas que desenvolveram um repertório ético e moral, estudando para valer. Não ouvindo as máximas dos StandUp Philosopher’s de plantão. Estudaram os clássicos filosóficos e se dedicam a cada dia a atualizar o seu conhecimento ético e moral.


Esse punhado de pessoas iluminadas fariam diferente nas empresas. Teriam atitudes como:

  • Sabem que todas as mazelas: éticas e morais, devem ser corrigidas e/ou punidas de acordo com sua gravidade e estrutura;

  • Sabem que o emprego está em jogo, a todo momento e, em nome da manutenção do bem comum, estão dispostos a perder o emprego. Entendem que trabalhar com pessoas antiéticas e imorais não vale a pena;

  • Não pensam duas vezes em denunciar, amigos ou não, sobre, mazelas antiéticas e imorais. “Dedurar” para essas pessoas é um ato de coragem para preservar o bem coletivo;

  • Não fazem nada anônimo. Se existe um ato antiético e imoral, investigam, se certificam, denunciam e cobram ações pontuais sobre o ocorrido;

  • Exigem treinamento ético e moral para todos os colaboradores e, em especial para as áreas de compliance, governança e afins, com objetivo do desenvolvimento da cultura ética e moral organizacional;

  • Se preocupam e discutem se as ações do dia a dia da empresa têm princípios éticos e estão dentro da moralidade prevista;

  • Questionam os aspectos da ação empresarial que envolve o coletivo. Certificam-se que estão fazendo a coisa certa ou lutando para que sejam feitas;

  • Combatem as “pseudo justificativas” para as mazelas éticas e morais, propondo ações e revisando posturas que coloquem a empresa no rumo virtuoso;

  • Se preocupam, sobremaneira, sobre o desenvolvimento do repertório ético e moral de todos os stakeholders;

  • Outras compromissos com o desenvolvimento da cultura ética e moral no dia a dia.

E sua empresa?

Responda honestamente: Qual tipo de colaborador você gostaria que sua empresa tivesse?


São duas respostas: para os outros e para mim.


Para os outros, você sempre vai dizer que a melhor resposta é das pessoas éticas e morais evoluídas. Mas para você, na prática, um pouco dos dois na empresa não faria tão mal assim.

Banalizamos a ética e a moral de tal forma que não queremos entender o potencial que essa cultura tem dentro de uma empresa, quando instalada verdadeiramente. Entendemos que acumular bens é mais importante que fazer o bem.


Um estudo sobre filantropia mostrou que, a maioria dos filantropos só começaram a doar e fazer benfeitorias após “sugar” tudo que o mercado dispunha. Para eles, “acumular bens” é a primeira coisa que devemos compreender na vida. Farinha pouca, meu pirão primeiro.

Assim, se a empresa deles cometeu irregularidades éticas e morais, foi para uma “boa causa”. Hoje, eles podem mitigar um pouco suas atrocidades motivados pela culpa que, felizmente, os condena. Lamentável e verdadeiro.


Continuo acreditando que a única possibilidade de evolução do ser humano é pelo aumento da consciência ética e moral. Se não for por esse caminho (o que é nossa realidade) vamos, cada vez mais, pagar uma conta monstruosa. Nosso fim como espécie.

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