Madalena Vencedora


Madalena é uma mulher deslumbrante. Corpo escultural, pele perfeita, olhos verdes, cabelos cor de mel e todos os atributos de uma pessoa, verdadeiramente, linda. Começou sua carreira aos 17 anos de idade. Em poucos meses já era capa das principais revistas de moda do Brasil e do mundo.
Aos 20 largou a carreira que sempre achou muito efêmera e que nada contribuía para seu desenvolvimento pessoal e do seu entorno. Filha de pais professores, Madalena estudou e morou durante os seus primeiros 18 anos de vida em sua terra natal no interior do Rio Grande do Sul. De origem alemã, aprendeu o idioma dos pais, o qual fala, lê e escreve com muita fluência. Além do alemão, fala, lê e escreve também: Inglês e francês. Sempre teve habilidade em apreender outros idiomas.
Hoje mora em São Paulo. É operadora de telemarketing trilíngue, ganha o equivalente a US$ 3.500,00. Trabalha de segunda a sexta-feira, das 14h00 às 20h00, numa seguradora multinacional, atendendo clientes do Brasil e do Mundo. Gosta muito do seu trabalho e entende que ele é uma ponte importante para ela atingir seus objetivos. Em função disso é muito dedicada e comprometida, e extremamente reconhecida pelos seus superiores.
Com 25 anos, no auge de sua melhor forma física, Madalena se formou no ano passado em psicologia na USP e agora está cursando o mestrado e pretende fazer o doutorado ambos na USP. Quer ser professora e ter sua própria clínica. Está planejando fazer seu pós-doutorado na França. Sua monografia e tese estão na linha de pesquisa que trata sobre: Ilusões possíveis do ser.
Madalena tem um segundo emprego: é garota de programa. Na verdade, ela fala, brincando, que é uma grande pesquisadora da mente humana. Madalena está 100% focada nas suas metas pessoais. Foi assim quando começou a carreira de modelo e é assim até hoje. Madalena quer ter aos 30 anos, um milhão de dólares disponíveis em sua conta bancária. Todo esse dinheiro deverá vir nos próximos 5 anos com os programas que ela faz e fará com pessoas cuidadosamente selecionadas. São executivos, ricos, na faixa etária de 45 a 60 anos, casados e que querem alguns momentos de prazer seletivo.
Na verdade, é a Madalena que seleciona seus parceiros. Antes de dar e receber prazer, Madalena conversa pelo menos uma hora com a pessoa que a chamou, geralmente em um bar ou restaurante, para depois decidir se vai ou não sair com ele. Em função de atitudes que julga inadequadas em uma pessoa, já deixou muitos homens falando sozinho. Ela afirma que disso ela nunca vai abrir mão, já que está no controle de sua vida e extremamente focada nos seus objetivos e metas.
Madalena recebe, por cada programa, no mínimo, U$D 1.000,00 e nunca faz mais de um programa por noite. Afinal, no dia seguinte cedo ela tem aulas e à tarde seu trabalho na seguradora. O dinheiro que recebe da seguradora é para seu custeio diário. Para atingir suas metas ela terá que fazer nesses cinco anos, 1.000 programas. Na verdade, são 1.180 já que ela está contabilizando todo esse dinheiro e os 180 programas a mais são para pagar impostos. São 64% do total de dias disponíveis nesses 5 anos que Madalena fará seus programas. É uma meta alta, porém atingível. Em função de sua passagem como modelo durante 2 anos, Madalena tem muita visibilidade e os parceiros a procuram a toda hora. Clientes com certeza não faltarão. Com 30 anos, doutora em psicologia, com um patrimônio importante, com sua própria clínica, Madalena quer ter filhos e viver com um cara legal. Hoje à noite, antes de sair para o seu 182º programa, ela se olhou no espelho e viu uma Madalena vencedora. Deu um beijo no reflexo, sorriu e foi buscar seus sonhos

Questões:

  • Onde reside a problemática de Madalena?

  • É possível levar uma vida 100% singular em termos éticos?

  • Alguém 99,9% ético, é ético?

  • Alguma semelhança da Madalena com você?

Comentários:

Falso moralismo a parte, não existe nenhum problema com a Madalena em relação a ser uma garota de programa ambiciosa. O caminho que Madalena decidiu seguir é um caminho igual ao das pessoas que traçam objetivos e metas de forma egóica. Não incluem a alteridade como algo normal para sua existência. Penso que o problema ético deste caminho está em tratar o outro como objeto e não como sujeito. Para conseguir seus objetivos Madalena vê as pessoas como meio e não com fim.


Todos nós em nosso itinerário da vida, acabamos vez por outra, tratando as pessoas de forma utilitária. "Usamos" entes queridos, não tão queridos, amigos, inimigos etc. Colocamos nossos interesses acima de uma visão humanista de alteridade. Mesmo com consciência desses fatos, temos muita dificuldade em parar de "usar" o outro, e mesmo de admitir essa atitude.


Nossos instintos de sobrevivência ainda são novos e nos fazem agir de forma primitiva e egoísta. Não há saída para esse paradoxo a curto prazo se não a de "vigiar" de forma intencional nossas ações, atitudes, comportamentos e pensamentos. Não basta querer ser bom. Tem que parecer bom e lutar contra as maldades que fazemos no dia a dia.

Immanuel Kant (1724-1804), em seus escritos, nos deixou uma pista sobre nossas ações com as seguintes máximas:

"Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal." Sobre a universalidade de nossas ações éticas. "Age de tal forma que uses a humanidade, tanto na tua pessoa, como na pessoa de qualquer outro, sempre e ao mesmo tempo como fim e nunca simplesmente como meio". Sobre a responsabilidade e alcance de nossas ações.


Nossa avaliação da vida deveria ser diária na tentativa de responder à questão: Hoje, fiz mais coisas que me orgulho e que gostaria que meus descendentes continuassem fazendo ou simplesmente não fiz nada demais?

Avaliações diárias sobre nossa existência, trazem à tona nossa essência e definem o para que existimos nesse mundo. Se não soubermos responder esse "Para Que?", ou se ele é apenas um "Por Que?", é necessário refletir mais sobre nossa consciência e objetivos.

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