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Temos Repertório para 2023?


O conceito de repertório se refere ao nível de conhecimento da pessoa, o seu nível cultural, a sua instrução; é todo conhecimento armazenado que modifica e confirma os ideais do ser. É o arcabouço que a pessoa construiu e vem construindo ao longo da vida, e que sustenta sua argumentação na busca da verdade.


Quanto menor o repertório de uma pessoa, mais fácil é sua alienação e seu fanatismo: religioso, político, futebolístico etc. Sua procura por conhecimento por meio de pessoas de discurso fácil e máximas, serve para manutenção de sua ignorância, por meio de uma narrativa mais dogmática do que racional. É fácil reconhecer, em todos os lugares e níveis sociais, pessoas de repertório medíocre. Há em todos os níveis de educação e midiáticos, tais como: Augusto Nunes, Rodrigo Constantino, Alexandre Garcia, Silas Malafaia, Edir Macedo entre outros.


Quanto maior o repertório, mais difícil de alienar uma pessoa, seja pelo seu criticismo latente e/ou por sua argumentação sem o uso da desonestidade intelectual na busca de convencimento. Há porém, aqueles que têm um vasto repertório, mas utilizam esse conhecimento para levar vantagens em pessoas com menor repertório. São manipuladores, sabem do seu potencial, mas só utilizam a seu favor. Não são generosos.


Estamos vivendo um paradoxo enorme. Temos um número de informações sobre qualquer assunto imenso e, mesmo assim, nosso repertório geral está diminuindo sobremaneira. Em tempos de avanço da inteligência artificial, o que me assunta é o retrocesso da inteligência natural.


Nos anos 80, se você jovem e simples mortal, quisesse saber o porquê o cigarro dá câncer por sua conta para entender os malefícios e parar de fumar, você poderia ir a uma biblioteca e ficar horas, dias e até meses procurando livros que explicassem o assunto. Cigarro light, cigarro tradicional, cigarro de fumo picado e assim vai. Com certeza, para você, ao final dos estudos, formar um juízo de valor honesto e razoável sobre o tema seria uma aventura sem tamanho. Poucos conseguiam essa proeza e muitos continuavam fumando.

Hoje, em minutos e na ponta dos dedos, você tem essa informação comparada e pesquisada por vários centros científicos do mundo, com análise de cientistas renomados e com repertório para tal e, mesmo assim, o percentual de jovens que fumam é muito parecido dos jovens da década de 80. Como pode?


A resposta é simples: ninguém mais tem paciência e vontade de construir um repertório sólido. Afinal, se precisar da informação as pessoas dão um Google.

Ninguém constrói um repertório robusto e estruturado “dando um Google”. Nem mesmo ouvindo as máximas dos “intelectuais” como: Leandro Karnal, Clóvis de Barros, Mario Sérgio Cortella, Luiz Pondé entre outros. Máximas não constroem repertório. Elas destroem com seu reducionismo causando mais mal do que bem.


É tão óbvio isso, mas as pessoas sem repertório são fáceis de serem cooptadas por máximas. Esses quatro que citei dão inúmeras palestras para empresas cobrando pequenas fortunas e, pasmem: nunca trabalharam em empresas de fato. Eles têm os seus negócios, mais são negócios de palestras. Trabalhar para melhorar o EBITDA, os processos operacionais, os processos comerciais eles nem sabem do que se trata.


Mesmo assim, são as vedetes do mundo empresarial que os buscam mais para manter a alienação, injetando “máximas motivacionais”. Qualquer argumento mais elaborado, de alguém com repertório, mostra que se trata de uma grande fraude intelectual.


Mas como eu disse, estamos vivendo um paradoxo sem fim. Não sou muito otimista em dizer que essa fase vai terminar. Não acredito nisso. Veja que os “Standup Philosophers continuam sem agenda e faturando muito. Eles que deveriam cuidar da qualidade do saber das pessoas, resolveram ganhar dinheiro com a falta de saber. Afinal, em um país que não valoriza a educação ficar lutando contra isso é burrice.


Um exemplo pessoal. Sabemos que Ética e Moral são temas que deveriam ser base de tudo, não é mesmo? Políticos, empresários, ativistas etc., vivem falando e criando a narrativas de que devemos ser ético e agir moralmente.


Pois bem, gosto muito destes temas. Me formei em comunicação e administração que não tratavam desses temas com profundidade. Trabalhei durante anos como executivo de empresas multinacionais e nacionais. Um dia resolvi voltar aos temas da ética e moral. Cursei, depois de velho, Licenciatura em Filosofia, Pós-graduação em Filosofia e Mestrado em Filosofia. Sempre na pesquisa sobre ética e moral. Após as formações estruturadas comecei a fazer outros cursos nacionais e internacionais sobre os temas. Hoje, cerca de 18 anos depois, tenho certeza que sei definir o que é ética e moral e como desenvolver a cultura ética e moral em escolas e organizações.


Analisei os currículos de mais de 100 cursos universitários e verifiquei que a disciplina ética e moral tem, no máximo, 12 horas/aula, para uma carga horária de um curso de graduação de 3.300 horas/aula. Para conhecer de forma razoável os conceitos de ética e moral, devemos no mínimo ter 80 horas/aula. Sem esse volume de horas, não tem como conhecer ética e moral e formar consciência. Além disso, a maioria dos professores que ministram essas disciplinas não são filósofos e não fizeram nenhum curso para aprender sobre os temas. Geralmente eles também “dão um Google”.


Em 2020 comecei procurar as faculdades e universidades. Escrevi para mais de 100, oferecendo as disciplinas de ética e moral para todos os cursos de: exatas, humanas, ciências biológicas etc. Resumo: quase ninguém respondeu. Quem respondeu, falou que queria apenas um curso de 6 horas. E que ninguém gosta desses temas.


Como não gostam dos temas se não os conhecem?

Além das faculdades e universidades, procurei escolas do ensino básico, fundamental e médio para propor um aprendizado sobre ética e moral adequado a cada idade. Meu mestrado em filosofia para crianças foi neste sentido. Eu acredito que a aprendizagem nos anos iniciais do desenvolvimento do ser humano é muito mais eficaz, mesmo com problemas conceituais entre o que a acriança aprendeu e o que seus pais praticam. Há uma dissonância nisso. Mesmo assim, seria extremamente importante iniciar a educação ética e moral com as crianças.


As escolas desses níveis educacionais não se interessam com isso. Acreditam que os valores familiares, valores religiosos e valores cívicos cumprem esse papel. Ledo engano. Nunca cumpriu e nunca cumprirá.

Hoje, assistimos pessoas com bom repertório saírem do país para continuarem suas pesquisas em outros lugares que as valorizam. Perdemos todos os dias centenas de jovens que buscam contribuir com a sociedade, só que em outro país.


Somos e seremos por um bom tempo, o país das commodities. Dependeremos do mundo para continuar adquirindo bens e serviços melhores dos que temos. Não sei como, mas precisamos sair desse círculo vicioso com urgência.


Que tenhamos um 2023 de incríveis rupturas.
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