Um erro justifica outro?


Quando Jair foi ao caixa eletrônico, teve uma surpresa agradável. Ele fez um saque de R$100 e recebeu R$10.000, com um recibo de apenas R$100.
Quando chegou em casa, conferiu seu saldo via internet e viu que não havia dúvida de que apenas R$100 tinham sido debitados da sua conta. Ele guardou o dinheiro em lugar seguro, esperando que o banco identificasse o erro, e o pedisse de volta. Mas, passaram-se semanas e ninguém ligou.
Depois de dois meses, Jair concluiu que ninguém ia pedir aquele dinheiro de volta. Então, foi até uma concessionária de automóveis levando no bolso a entrada para um carro esporte.
Mas, no caminho sentiu uma pontada de culpa. Aquilo não era roubo? Ele logo se convenceu de que não era nada daquilo. Ele não pegara o dinheiro deliberadamente. Simplesmente fora dado a ele. E ele não pegara de outra pessoa, então ninguém tinha sido roubado. Para o banco era uma gota em um oceano, e, de qualquer forma, eles teriam seguro contra essas eventualidades. A culpa de ter perdido o dinheiro era deles que deveriam ter sistemas mais seguros. Não, isso não era roubo. Era apenas o maior golpe de sorte de toda a sua vida.

Comentários do Texto:


Não conheço ninguém que, quando descobre um “erro bancário” a seu favor depois de tirar uma carta de “receba R$200” em uma partida de Monopólio devolva o dinheiro ao banco, alegando não pertencer a ele de verdade (jogo Banco Imobiliário). Mas, na vida real, esperamos que uma pessoa honesta faça exatamente isso. Mas quantas pessoas fariam? Acho que não muitas.


Não que as pessoas sejam simplesmente imorais e antiéticas. Na verdade, fazemos discriminações bem refinadas em casos como esse. Por exemplo, se as pessoas acidentalmente recebem troco a mais de um pequeno comerciante independente, tem mais chance de apontar o erro do que se ele for cometido por uma grande empresa. O princípio parece ser que é errado tirar proveito dos erros de outro ser humano, mas é justo com as grandes empresas, principalmente bancos, que no Brasil, cobram juros obscenos. Provavelmente isso acontece, em parte, porque sentimos que, na verdade, ninguém sai ferido pelo erro de uma entidade corporativa, e a perda para eles é insignificante comparada ao benefício para nós. De um jeito estranho, então, nossa disposição para ficar com a grana é estimulada em parte por um sentido peculiar de justiça.


Mas mesmo que cheguemos à conclusão de que é uma forma de roubo justificado, não deixa de ser roubo. O fato de isso ser resultado de um acidente, sem a intenção de roubar, é irrelevante. Por exemplo, imagine que você, por engano, pega a bolsa de alguém no guarda-volumes e em seguida descobre que ela tem coisas muito mais valiosas que a sua. Se não fizer esforços para devolvê-la, a natureza acidental da obtenção daquilo não justifica a decisão posterior e muito deliberada de nada fazer em relação a isso. Da mesma forma, você ficaria chateado e com razão se alguém pegasse algo de valor que você, sem querer, esqueceu em algum lugar, raciocinando que foi culpa sua por não ter sido cuidadoso o suficiente.

O pensamento de Jair de que o banco pode muito bem arcar com a perda também é espúrio, pois se isso também justifica sua atitude, também justifica roubar objetos em lojas. As lojas também têm seguro, e pequenos furtos não vão afetar seus lucros.


O motivo por que Jair foi tão facilmente convencido por seus próprios argumentos é que, como todos nós, ele é propenso a ver as coisas com uma ótica favorável a si mesmo em seu raciocínio. Motivos que justificam benefícios para nós mesmos parecem mais convincentes que aqueles que não o fazem. É muito difícil desativar esta propensão e pensar de forma imparcial. Afinal, por que iríamos querer fazer isso?


Jair tem a seu “favor”, a ignorância sobre o que é ética e moral, além de ter sido criado tendo o “jeitinho brasileiro de ser” como um fio condutor. Para que Jair conseguisse emitir um juízo de valor ético e moral sobre o acontecido, teria que ter estudado ética e moral de forma estruturada e profunda. Apenas utilizando os valores familiares, religiosos e cívicos, não conseguiria definir de forma ética e moral o acontecido. Isso porque esses valores (familiares, religiosos e cívicos) são apenas réguas particulares e individuais para medir suas ações. Essas réguas representam as crenças de Jair e foram construídas de acordo com que ele acredita ser o certo/errado (moral) e o bem/mal (ética).


Resumindo: Jair é uma pessoa antiética e imoral na sua gênese. O ocorrido apenas revelou o que ele acredita ser o justo, baseando-se na sua ignorância ética e moral.

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